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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
Álvaro Cunhal apela ao voto no CDS
O apelo foi feito em carta publicada no “Avante,” órgão oficial do PCP, que prova de uma vez por todas que é um jornal independente, aberto a todas as correntes de opinião e com uma vaga para a posição de editor, depois de o anterior ter sido acidentalmente lançado pela janela do quarto andar no mesmo dia da publicação da carta. Cunhal explica que o apoio de Freitas do Amaral a um partido de esquerda é muito suspeito e que só pode significar que existe uma conspiração de direita para minar por dentro o extremo oposto do espectro ideológico. Por isso, e pelo sim, pelo não, decidiu usar as mesmas armas e manifestar o seu apoio incondicional ao CDS como único partido capaz de defender os direitos dos trabalhadores, dos agricultores, dos reformados, dos cães abandonados e dos desgraçadinhos em geral. Ao mesmo tempo, foi o momento ideal para assumir publicamente o “amor proibido” que Álvaro Cunhal sente há muito pelo CDS e pela democracia-cristã, ideologia que só não abraçou abertamente há mais tempo por medo de ser mal compreendido pelos seus camaradas comunistas. Refira-se, em jeito de curiosidade, que o romance “Até Amanhã, Camaradas,” escrito sob o pseudónimo Manuel Tiago, deveria ter-se chamado “Até Amanhã, Tio” e que o pseudónimo original era Madalena de Sousa Costa Palmeiro Antunes Ribeirão Serzedelo e Bacelar de Figueiredo. Infelizmente, a censura interna do partido alterou o título, o nome do autor e a bela história de paixões escaldantes nas mansardas à beira-mar de Paço de Arcos, perdendo-se uma pérola da literatura portuguesa do século XX, capaz de rivalizar com “Os Maias,” “Amor de Perdição” ou “Alma de Pássaro.” Esta abertura de espírito de Cunhal serviu de exemplo a outros líderes emblemáticos que aproveitaram a oportunidade para assumir atracções desconhecidas por outros partidos e ideais. Assim, Mário Soares anunciou ao mundo que é um monárquico convicto há muitos anos e pretende concorrer à liderança do PPM, enquanto que Aníbal Cavaco Silva admitiu fazer parte do governo-sombra do POUS, partido que inspirou esse belo momento de activismo proletário em que Cavaco mastigou uma fatia de bolo-rei com a boca escancarada para as câmaras de televisão nas presidenciais de 1996. |