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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
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Noite feliz Um Natal canibal
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convivas devidamente reunidos, tratava-se de averiguar quais as principais
novidades na família desde o Natal anterior. Não era costume
haver grande coisa que contar. Sebastião e Ernesto, gémeos
siameses filhos de Maria Isabel e Nicolau, continuavam a não
conseguir ultrapassar o diferendo que os impedia de dirigirem a palavra
um ao outro desde que, anos antes, um deles (já ninguém
se lembrava qual, nem os próprios) tinha ousado comer uma barra
dietética de sementes de girassol e glucose que tinha sido oferecida
ao outro. Podia parecer fraco motivo para tão longo diferendo,
sobretudo porque ambos partilhavam o mesmo aparelho digestivo, mas a
verdade é que os gémeos persistiam num corte de relações
que durava há dez anos e que só era interrompido por motivos
profissionais, visto que ganhavam a vida com um número muito
rentável de prestidigitação em parelha, fazendo
digressões prolongadas pela corte das principais cabeças
coroadas da América Central. Sobre a lareira, lá estava o brasão encomendado a um sapateiro vizinho que tinha a heráldica como passatempo. Em campo de prata, uma perna decepada sob pimenteiro de azul e com dois besantes violeta para dar colorido ao conjunto. O simbolismo remontava aos tempos de Gervásio que, diz-se, durante banquete no qual recebia altas individualidades, foi informado de que a provisão de carne não era suficiente para o número de convidados e, na urgência do momento, mandou matar o filho mais velho e prepará-lo de cebolada. De então para cá, o canibalismo passou a marcar presença nos hábitos alimentares de gerações incontáveis de Loureiros, fixando-se o Natal como noite canibal por excelência, sem invalidar um ou outro petisco antropófago distribuído pelo resto do ano. Mas a normal evolução dos tempos foi responsável por algumas adaptações do molde original a um formato mais condizente com a contemporaneidade. Em vez de se sacrificar um primogénito em cada consoada, hábito mantido até 1921, o feliz canibalizado passou a ser escolhido à sorte pelo método da palhinha mais curta. O ponto de viragem foi a percepção de que a subsistência da família estava em risco com a diminuição crescente da natalidade, levando a que os primogénitos, por mais saborosos e suculentos, fossem muitas vezes a única prole de determinado ramo familiar. Outra alteração foi o fim da participação obrigatória no sorteio de todos os elementos da família com peso e dimensões corporais suficientes para constituir refeição substancial. Para evitar a repetição de amargos de boca passados, excluem-se os maiores de 70 anos e quem padeça de maleitas alterantes do sabor. Nesta consoada em especial, ficariam de fora a avó Deolinda pelo décimo ano consecutivo e o tio Ramiro por medo de que o abuso continuado de bebidas espirituosas e a concentração de álcool no sangue pudessem provocar um acidente no contacto entre a carne e a brasa (no Natal canibal dos Loureiros, havia carne para todos os gostos, desde bitoques, lombinhos, febras, ensopados, recheio de empadão e as sempre populares bifanas grelhadas ao ar livre). Entre os
sorteáveis, a emoção era muita. Não se sabia
quem seria o contemplado. Apenas que receberia o martírio com
desportivismo, consciente de que tudo aquilo era pela manutenção
dos valores da família e pelo espírito da quadra, sempre
tão rico em exemplos de altruísmo. Podia ser qualquer
um. Esperava-se que não fosse Jacinto, solteirão alto
como um campanário mas a quem chamavam “Alfinete”
pela magreza de carnes. E havia quem deitasse já o olho com ânsias
gulosas ao resto da parentela, com especial incidência sobre Cândido,
campeão distrital de triplo salto e dono de umas coxas que prometiam
bifes de primeiro calibre, e sobre a anafadíssima tia Eustáquia,
toda ela um maná potencial de escalopes de macieza vitelina.
Com um último aceno e um amplo sorriso, é levada para a cozinha, onde mãos cuidadosas a matam sem dor e a esquartejam com toda a devoção. Enquanto se assiste à mensagem natalícia do Cardeal Patriarca, enche-se a casa com uma miríade de perfumes deliciosos, anunciando pratos, terrinas e travessas contendo o que de melhor a tia Eustáquia tinha para oferecer, provocando durante a refeição comentários atestando que sempre fora uma mulher dotada de grande coração. E ele ali estava, cozido com especiarias e um fio de azeite, rodeado de arroz de legumes, amplo como um coração de boi, confirmando a velha suspeita. Ao centro da mesa, sobre folhas de alface, a cabeça da tia ainda sorridente, pincelada com ovos batidos e ornada por uma coroa de ramos de alecrim. Os olhos tinham sido previamente arrancados e cristalizados em açúcar, repousando junto às sobremesas como prémio para a criança com o melhor aproveitamento escolar do ano. Apesar
da alegria típica da quadra, há também lugar para
a saudade e, num momento de menor sofreguidão, o pachorrento
tio Vitorino não contém a nostalgia e deixa escapar um
lamento singelo pela ausência do irmão Jerónimo
nesta primeira consoada sem as suas gargalhadas efusivas. Todos concordam
e propõe-se um brinde ao tio Jerónimo e à sua boa
disposição com os copos bem erguidos e olhares aguados
sobre um prato de rissóis que tinham sobrado do ano anterior,
devidamente congelados e mantendo toda a frescura. Pudessem todas as
famílias disfrutar de idêntica comunhão familiar
e, com toda a certeza, o mundo seria um lugar melhor. Um santo Natal
para todos. |
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