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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
Entrevista ao Padre Mário Oliveira
Inépcia-Foi perseguido, preso, exonerado, tratado como uma espécie de “anticristo” em ponto pequeno. Tendo o perdão a importância que tem no cristianismo, já perdoou às pessoas responsáveis por tudo isto? Padre Mário-Posso ter inimigos, mas não sou inimigo de ninguém. Acho também que nunca tive que perdoar a ninguém, pela simples razão de que nunca cheguei a ficar contra ninguém. Ao longo dos anos, fizeram-me tudo isso que diz a pergunta e muito mais, mas eu nunca fiquei contra as pessoas que assim agiram comigo. Sempre continuei a tratá-las como pessoas, a respeitá-las e a amá-las. Ao mal que me fazem, procuro responder sempre com o bem. Recordo-me, a este propósito, que, depois do 25 de Abril de 74, fui chamado a depor no Tribunal de Extinção da Pide/DGS, onde estava a ser julgado o homem que o Tribunal tinha como o principal responsável pelas minhas duas prisões políticas em Caxias. O colectivo de Juízes fez questão de ouvir o meu depoimento, para, com base nele, poder condená-lo. Pois bem, eu cheguei ao Tribunal, olhei fraternalmente para o senhor Julinho (era assim que o povo da freguesia de Macieira da Lixa o tratava) e pedi de imediato a sua absolvição. Aos meus olhos, o que ele havia feito tinha sido por arrastamento de outros muito mais poderosos e influentes, que habilmente se tinham servido dele contra mim e ficaram sempre na sombra. O colectivo de Juízes ficou manifestamente perplexo com as minhas palavras, para não dizer, em estado de choque, mas teve que mandar em paz o acusado. Devo dizer, igualmente, que os meus braços de homem padre estão sempre abertos para abraçar todas as pessoas, inclusive, aquelas que me tenham feito mal, ou ainda venham a fazer. Acontece, porém, que, muitas vezes, as pessoas que me fazem mal não conseguem depois aceitar o abraço que lhes quero dar. Continuam a detestar-me. Prefeririam, se calhar, que eu as odiasse também a elas. Creio que até me detestam ainda mais por eu, ao ódio delas, responder com respeito e amor. Mas é assim que sou. Sem ter que fazer um esforço por aí além. Sou assim por natureza e também pela graça a que procuro estar permanentemente aberto. Acho que é assim que todos nós, mulheres e homens, haveremos de ser, se quisermos ser verdadeiramente humanos. Ao mal que nos façam, havemos de responder só com o bem. O nosso mundo será então de muito mais paz. I-O que sente alguém preso sem ter cometido qualquer crime? Há arrependimento? Nalgum momento se pensa “eu sei que tenho razão mas se estivesse calado e quieto evitava estar aqui”? PM-No meu caso,
senti-me sempre fortemente injustiçado pelo facto de estar preso.
E das duas vezes que me levaram para a Cadeia política, comecei
sempre por protestar por escrito, através de exposições
que fazia chegar ao respectivo director. Bem sabia que, na prática,
esses meus protestos escritos de nada valiam, mas o gesto, só
por si, consubstanciava a inequívoca afirmação
da minha própria dignidade perante o Regime bruto e cruel que
prendia pessoas inocentes, só porque elas lhe eram politicamente
incómodas. Mas, depois, uma vez metido à força
na prisão política, nunca senti qualquer arrependimento
pelas posições anteriormente tomadas. Pelo contrário,
ao ver-me injustamente na prisão, dei-me conta cada vez mais
da perversidade e da crueldade do Regime que me havia prendido. Era,
por isso, um Regime a denunciar sem cessar, desmascarar e combater cada
vez com mais audácia e determinação. Em nome da
Humanidade e da dignidade das pessoas. Recordo-me, a este propósito,
que quando, depois da minha primeira prisão política em
Caxias, regressei à paróquia, em lugar de me comportar
com mais cautelas que anteriormente, acirrei ainda mais o combate pela
libertação das pessoas e dos povos contra o Regime. Afinal,
o Regime havia transformado o país numa prisão. Por isso,
não tinha que ser respeitado, mas simplesmente desmascarado,
até ser abolido. E foi o que passei a fazer com redobrada determinação,
depois da primeira prisão política que sofri. Tenho consciência
que não há dignidade humana sem liberdade. E sem luta
pela liberdade, quando esta ainda não é o pão na
vida de todas as pessoas e de todos os povos. No meu entender, o medo
e a “prudência”, perante regimes autoritários,
para não se ser incomodado por eles, nunca são caminho
para se ser homem, mulher com todas as letras. Por isso, não
esperem que eu cultive essas “virtudes”. Prefiro sempre
a via da dissidência, como caminho para a verdadeira paz. PM-Não direi propriamente: “fazer ainda pior”. Para mim, o segredo da resistência ao autoritarismo e à opressão é ousarmos ser cem por cento humanos, sem nunca recuarmos, sejam quais forem as circunstâncias. Porque se, perante esses e outros males, recuamos em humanidade, podemos acabar transformados em minhocas, em coisas, em meros funcionários. O autoritarismo e a opressão nunca podem ser acatados por ninguém, indivíduo ou povo, que se preze. Têm que ser combatidos. Sempre. Com muita imaginação e inteligência. Uma das maneiras mais eficazes de atacar esses males é praticar a resistência activa perante eles. Ninguém pense que é coisa fácil ser homem, ser mulher, dentro da presente Ordem mundial neo-liberal do Império. Não é. O que é fácil, mas também ignóbil, é regredirmos até nos tornarmos capacho de quem é autoritário e opressor. Mas também neste particular, o Sistema não tem podido nunca contar comigo. É por isso que o meu itinerário de vida foi e continua a ser tão atribulado. Mas é o itinerário de vida de um homem saudavelmente dissidente, activamente resistente, insubmisso, insubornável, solidário, irmão universal. I-O que aconteceu em Fátima a 13 de Maio de 1917? PM-Começo por declarar que Fátima é, porventura, a maior mentira fabricada por um certo tipo de Catolicismo português que, estranha e escandalosamente, sempre contou e continua ainda hoje a contar, apesar de entretanto ter acontecido o Concílio Vaticano II, com o reconhecimento da generalidade dos Bispos, da Cúria Romana e até do Papa, nomeadamente, do actual Papa João Paulo II, que, como se sabe, é um dos filhos mais idolatrados da católica Polónia e um fruto acabado do seu feroz anticomunismo/anti-ateísmo primário. O que aconteceu em Fátima em 13 de Maio de 1917? Depois de muito me ter debruçado sobre o fenómeno, cheguei à conclusão de que o dia 13 de Maio de 1917 foi o início da fabricação da grande mentira que é hoje Fátima. O clero da região preparou tudo ao pormenor e fez acontecer aquela “aparição”. Depois, a credulidade e a crassa ignorância teológica e evangélica das populações da época, mais o obscurantismo e o medo em que viviam no seu dia a dia, fizeram o resto. Até fizeram acontecer o chamado “milagre do sol”, uma inventona objectivamente boba e humanamente ignóbil. Que fique bem claro, duma vez por todas: Não há, nunca houve, nem jamais haverá aparições de Maria, mãe de Jesus, a ninguém, crianças ou adultos, mulheres ou homens. Apareça o primeiro teólogo cristão que me desminta de forma fundamentada. Por isso, tudo o que se disser a este respeito – e muito se tem dito e escrito, infelizmente – é mentira, fantasia, exploração da credulidade das pessoas simples e ingenuamente propensas ao maravilhoso. Não tem qualquer verdade objectiva e cientificamente comprovada. E repugna ao núcleo essencial da Fé cristã jesuânica! O que as três crianças de Fátima “viram” e “ouviram” – se é que elas viram e ouviram alguma coisa no dia 13 de Maio de 1917 – foi apenas o que elas já tinham nos seus próprios cérebros aterrorizados pelas pregações da Santa Missão e pela leitura em família do livro Missão Abreviada. Porém, pela forma como toda esta mentira foi inicialmente montada e é oficialmente relatada, o mais que pode ter acontecido foi uma dramatização teatral, em que Lúcia, a mais velha das três crianças, fez o papel de actriz principal. Nada mais do que isso. E se dissermos que em Fátima houve uma manifestação do “divino” ou uma comunicação do “céu” com a terra, mentimos com quantos dentes temos na boca. Um tal “divino” não passaria, afinal, de demoníaco. Aliás, é este demoníaco que, em nós, no nosso inconsciente individual e sobretudo colectivo, sempre espera, pede, reclama e exige de Deus “milagres”, manifestações do “sobrenatural”. Pelos frutos – diz Jesus no Evangelho – se conhece a árvore. Neste caso, se conhece Fátima. Ora, os frutos de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda foram e continuam a ser tão perversos, tão inumanos, tão cruéis, tão alienadores, tão anti-Evangelho, tão anti-Jesus de Nazaré e até tão anti-Maria, sua mãe, que nada daquilo pode ter o “selo” ou a “marca” de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus e de Maria. Tudo aquilo é idolatria, alienação, exploração, culto do medo, covil de ladrões. Por isso, digo sem hesitar: quanto mais a Igreja católica se identificar com Fátima, mais perderá em autenticidade e em credibilidade. Fátima tem sido e continuará a ser, se a Igreja teimar em manter-se lá a arrecadar todos aqueles milhões de euros por ano e todo aquele ouro levado pelas populações adoentadas e maltratadas por economias e políticas sem misericórdia, o vírus que corrompe e paganiza o Cristianismo jesuânico. A cova dos milhões. O cemitério da Igreja. I-Como vê a polémica recente provocada pela ida de sacerdotes não cristãos ao santuário de Fátima? O eclectismo tem limites? PM-A mim, nada disso me aquece ou arrefece. Todos os chefes das religiões gostam de locais onde se congreguem multidões, massas humanas sem consciência crítica, grandes quantidades de pessoas não-ilustradas e não-evangelizadas. Esses locais são terreno propício à mentira, à aldrabice, ao engodo, ao maravilhoso, à manipulação das massas populares, por parte das elites dos privilégios, nomeadamente, das elites religiosas, qualquer que seja a religião. Se desses locais desaparecesse a aceitação, por parte dos responsáveis, das ofertas em dinheiro das devotas, dos devotos e fosse também banido todo o rendoso negócio religioso que logo por ali prolifera como cogumelos, os sacerdotes e outros líderes religiosos dificilmente passariam por lá. Mas isso ninguém, nenhum líder religioso, nenhuma Igreja faz. Fátima é mentira. E lá, onde impera a mentira, também impera a opressão, o autoritarismo, o arbitrário, a alienação popular, a idolatria. Basta ver com olhos de ver através da televisão o comportamento da multidão, num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. É manifestamente uma multidão triste, sofrida, cativa da injustiça que, ano após ano, geração após geração, espera infantilmente por um “milagre” que lhe resolva magicamente os problemas. O que nunca aconteceu. Nem acontecerá! Entretanto, não há ninguém que anuncie a essa multidão o Evangelho ou a Boa Notícia de Jesus que nos revela que os problemas da Humanidade só serão resolvidos se todas, todos nós fizermos por isso. Com engenho e arte. Com empenho e luta política. Como se Deus não existisse. Vejam, entretanto, que nenhum dos responsáveis da Igreja católica que intervêm em Fátima, desde o Reitor do santuário, ao Bispo da diocese e a acabar no Papa de Roma, se atreve a ir por aqui. O mesmo se tem que dizer dos líderes de outras religiões que por lá passam. Uns e outros praticam o discurso da mentira, da alienação, do anti-Evangelho. Vejam igualmente como todos eles, aparentemente tão diferentes entre si, acabam sempre por se entenderem uns com os outros. Tenho a certeza que se Jesus viesse de novo à terra, os líderes religiosos católicos jamais o receberiam em Fátima, muito menos, o deixariam intervir num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. E, se, por engano, o autorizassem, não o deixariam concluir a sua intervenção e matá-lo-iam nesse dia. Ou, então, tratavam-no como um louco varrido diante de toda a multidão mantida propositadamente por eles no infantilismo e na ingenuidade! I-Normalmente, há três palavras que é melhor não referir em conversas com sacerdotes. Como o padre Mário não é propriamente um sacerdote-tipo, arrisco-me a juntá-las na mesma pergunta e peço-lhe que comente como entender. Aborto, contracepção, homossexualidade. PM-Não vejo
porque seja melhor não referir tais palavras em conversas com
padres ou presbíteros da Igreja. Pessoalmente, não gosto
da designação “sacerdote” para nos referirmos
ao ministério ordenado. O ministério em que eu próprio
fui ordenado pela Igreja é o de presbítero. Sacerdote
tem a ver com religião e com os cultos do Paganismo. Sacerdócio
remete logo para o paganismo, não para Jesus. É certo
que a Carta aos Hebreus tentou recuperar para o Cristianismo o termo
sacerdote, mas teve o cuidado de dizer que só Jesus – que
destruiu simbolicamente o templo de Jerusalém, e foi odiado com
ódio de morte pelos chefes dos sacerdotes do seu país
– é sacerdote. E logo acrescentou também que ele
é sacerdote, não da ordem de Aarão, mas da ordem
de Melquisedec, o que significa um tipo de sacerdote que tem tudo a
ver com a Política e com os acontecimentos de que é feita
a História, e nada a ver com a Religião e com os cultos
sacrificiais nos templos e altares. I-O celibato é assim tão essencial à prática do sacerdócio como nos é dado a entender? Acha que um padre casado poderia ser um bom padre? PM-O celibato imposto
como disciplina eclesiástica católica romana é
apenas isso: disciplina eclesiástica. Não tem origem nem
fundamento no Evangelho, muito menos procede do pensamento e da vontade
de Jesus de Nazaré. Aliás, atenta contra a letra de algumas
cartas que integram o Novo Testamento, as quais contêm recomendações
dirigidas directamente aos bispos, para que sejam homens de uma só
mulher, por isso, não celibatários! É uma disciplina
imposta pela Igreja católica de Roma a todos os católicos
que aceitem ser ordenados presbíteros ou padres. (A Igreja católica
oriental tem outra disciplina completamente diferente e nem por isso
deixa de ser Igreja católica!) Como se trata duma disciplina
imposta, será mais correcto falar de prepotência eclesiástica,
melhor, prepotência da Cúria Romana. Para cúmulo,
exercida contra o sentir e o querer da Igreja-povo-de-Deus que gostaria
de ver os “seus” padres com liberdade de casar ou não
casar. Trata-se duma daquelas prepotências da Cúria romana
que os Bispos que presidem a cada uma das múltiplas Igrejas locais
jamais deveriam acatar e respeitar. Na medida em que a acatam e a põem
em execução, tornam-se cúmplices da Cúria
Romana, pecam como ela contra o Espírito Santo, que não
quer nada dessas coisas, uma vez que Ele é todo pela liberdade
e pela responsabilidade, nada pelo autoritarismo da Lei e do tradicional,
nomeadamente, quando este, como acontece aqui, é inumano. Reconheço
que, por causa desta prática eclesiástica, a nossa Igreja
católica é hoje uma Igreja em estado de pecado. Não
admira então que tenha cada vez menos membros. E que aqueles
membros que ela ainda mantém, sejam tão tristes, tão
oprimidos/deprimidos, tão amargos/amargurados. I-Uma mulher poderia ser um bom sacerdote? PM-Mulheres presbíteras na Igreja será a grande realidade de amanhã, também na Igreja católica. Ou assim, ou a Igreja católica acabará riscada da sociedade. E, se ainda vier a continuar nela, será apenas como coisa de museu, por isso, sem a força transformadora do fermento, nem a fecundidade do grão de trigo que morre sob a terra para dar muito fruto. Na Bíblia em geral e no Evangelho de Jesus em especial não há nada que impeça este passo em frente, por parte da Igreja católica, em relação à ordenação de mulheres. Pelo contrário. Tudo hoje está a chamar para aí, de modo que não avançar nessa direcção, a pretexto de nos mantermos fiéis a uma prática eclesiástica anterior de ordenação só de homens e homens sem mulher, é pecar, e pecar com contumácia contra o Espírito Santo. Ou o Espírito Santo não esteja aí a clamar nos sinais dos tempos que as mulheres, tanto como os homens, estão chamadas a ocupar lugares de decisão e de direcção, em radical igualdade com eles, seja na sociedade em geral, seja nas Igrejas, em especial. De resto, é bom que, também aqui, as Igrejas dêem o exemplo, abram caminhos ainda não andados, em lugar de seguirem a reboque da sociedade, como carros vassouras da História. I-O movimento carismático tentou recuperar para o catolicismo fiéis que perdeu para confissões evangélicas, usando meios muito parecidos aos que usava, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus. Será este o caminho certo? Alguma vez viu o canal carismático “Canção Nova”? PM-Não creio que seja esse o caminho certo. Vi algumas vezes o canal “Canção Nova”, no tempo em que ele ainda não tinha passado a codificado, e fiquei ainda mais convencido que o caminho não é por aí. Já S. Paulo, por volta do ano 50 da nossa era, se insurgia contra os “carismáticos” da Comunidade de Corinto que falavam “línguas” que ninguém entendia e mantinham outros comportamentos bizarros completamente estéreis e alienantes. A prática de Jesus de Nazaré também nunca foi por aí. E o Evangelho de João atreve-se a dizer que apenas a prática de Jesus é a correcta, quando no-lo apresenta a proclamar, alto e bom som: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Admito que um certo sector da Igreja católica se converteu oportunistamente aos métodos da Igreja Universal do Reino de Deus, certamente, com o objectivo de tentar estancar a perda de milhares de fiéis todos os anos a favor das novas Igrejas evangélicas. Mas esses métodos têm mais de demoníaco do que de jesuânico. Alienam as pessoas. Manipulam a consciência das pessoas. São mentira. Exploram financeiramente as pessoas até ao osso, em especial as pessoas com graves problemas de saúde e de droga. Para além de as aterrorizar. Por outro lado, tornam as pessoas confrangedoramente dependentes dos cultos periódicos e dos pastores com jeito para o comércio religioso e para o blá-blá-blá com sotaque brasileiro. Para cúmulo, retiram as pessoas das lutas e das intervenções políticas. Mantêm-nas num fideísmo infantil e ingénuo, e num milagrismo alienante, de bradar aos céus. Com o passar dos dias, percebe-se também que esses são métodos que matam a originalidade e a criatividade das pessoas, o que eu chamo verdadeiros casos de polícia e dos Tribunais. Infelizmente, ninguém actua, certamente em nome da liberdade religiosa, mesmo quando esta, como é manifesto no caso destas novas Igrejas-seita, a liberdade religiosa é sobretudo liberdade para matar, roubar e destruir o que há de melhor e de mais genuíno em cada pessoa. É caso para dizer que carismáticos assim só o podem ser, não do Deus-Espírito Santo, mas do Deus-Demoníaco, melhor, do Deus-Dinheiro, que os pastores que estão à frente dessas Igrejas, assim como os padres e responsáveis leigos da “Canção Nova” fazem tudo para sacar a quem tem a desgraça de lhes cair nas mãos, digo, nas garras. I-Em entrevista ao Jornal de Notícias, o padre José Luís Borga chamou-lhe “doente.” Não querendo fazer disto um ajuste de contas, qual a sua opinião acerca do padre Borga enquanto artista e figura mediática? PM-É verdade,
o meu colega Pe. Luís Borga chamou-me “doente”. E
no contexto em que o fez, só poderá entender-se doente
do foro psiquiátrico. Por outras palavras, chamou-me “louco”.
Não se pode dizer que essa sua opinião a meu respeito
tenha sido inspirada pelo Espírito de Deus, uma vez que é
uma opinião que atenta contra o que nos recomenda Jesus, no Evangelho
de Mateus. Em concreto, diz Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos
antigos: Não matarás. Aquele que matar terá que
responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar
contra o seu irmão será réu perante o tribunal;
quem lhe chamar «imbecil» será réu diante
do Conselho; e quem lhe chamar «louco» será réu
da Geena do fogo” (Mt 5, 21-22). Surpreendeu-me essa opinião
caluniosa, tanto mais quanto o meu colega Pe. Luís Borga, até
hoje, nunca se me dirigiu, nem de viva voz, nem por escrito. Se é
assim que ele me vê e se, como ele próprio diz nessa entrevista,
me tem como seu irmão no presbiterado, então já
poderia ter tido comigo alguma manifestação de cuidado
e de ternura fraternal. Nunca teve. Entretanto, é bom lembrar
que a opinião caluniosa que o meu colega Pe. Luís Borga
lança contra mim sempre foi lançada também contra
aquelas pessoas que, no seu tempo histórico, têm tido a
audácia da dissidência, da liberdade, da autonomia, da
fidelidade à verdade que nos faz livres. Ao chamar-me “louco”,
o meu colega Pe. Luís Borga colocou-me sem querer em boas companhias.
Não é verdade que também chamaram “louco”
a Jesus, o de Nazaré? E possesso do demónio? E não
disseram que tudo o que ele fazia de libertador e dizia de denúncia
era por obra de Belzebu, chefe dos demónios? Por isso, daqui
agradeço ao meu colega Pe. Borga essa referência que me
fez e esse epíteto que me atribui. I-Com tudo o que tem acontecido ultimamente, como vê o futuro do país a curto-médio prazo? PM-Com este Governo de Paulo Portas/Santana Lopes, o país vai a pique para o abismo. O Inimigo do país e do povo português está hoje no próprio Governo. Parece que cada ministro faz gala de ser ainda pior do que outro. Quando o PR decidiu, à revelia do sentir e do querer da esmagadora maioria da população, chamar Santana Lopes a formar governo e, dias depois, o empossou como o primeiro-ministro de Portugal, insurgi-me e gritei por uma nacional Insurreição Cívica que nos levasse a eleições antecipadas. Infelizmente, não fui ouvido, nem sequer pelos grandes meios de comunicação social. Nenhum deles se fez eco do meu grito. Hoje continuo a não ver outra saída. Ou damos corpo rapidamente a uma nacional Insurreição Cívica, rumo a eleições antecipadas, por demissão deste Governo, ou acabámos caídos numa nacional Depressão Cívica, de onde será muito difícil sair. O fascismo que nos infantilizou e castrou, como povo, até ao 25 de Abril, já está aí de novo e em força. Reciclado, evidentemente. Todos estes anos depois, nunca chegamos a ser devidamente curados das sequelas que o fascismo nos deixou. E, por isso, o fascismo, devidamente reciclado, pode sempre regressar a qualquer momento. Ainda encontra muita gente que lhe dê guarida. Está à vista de todas as pessoas que assim é. Com a agravante de que, nesta altura, não há, organizada no terreno, como antigamente havia, uma acção de resistência, a trabalhar na clandestinidade. Começa a ser necessário voltar a essa acção de resistência clandestina, mas em moldes novos, adaptados ao nosso hoje. Organizemos, pois, de novo a resistência activa. Mobilizemo-nos. Cumpramos aquele axioma revolucionário que diz: Façamos sempre o contrário do que o Inimigo quer. Para que o Governo e os seus ministros fiquem sozinhos, a bater furiosamente com a cabeça contra as paredes. I-E do mundo? PM-Hoje, o nosso mundo está totalmente dominado pelo Império. Mas a História mostra-nos que o Império, por mais poderoso que seja, tem sempre pés de barro. O 11 de Setembro e o 11 de Março foram os dois últimos grandes apocalipses (= revelações) que nos tiraram a venda dos olhos acerca do Império. Por isso, se corrermos a cerrar fileiras contra o Império, abriremos novas oportunidades ao nosso presente. Se, pelo contrário, nos deixarmos enfeitiçar e seduzir pelo discurso do Império e corrermos a cerrar fileiras ao lado dele, então preparemo-nos para um prolongado Inverno no planeta. O Império, por mais hábil que seja no seu discurso e por mais poderoso que seja nos seus exércitos, é sempre mentiroso e assassino. Quando parece que protege, aprisiona e escraviza. Quando parece que salva, mata sem dó nem piedade. Despertemos, pois. Arregalemos bem os olhos do corpo e sobretudo da consciência. Se corrermos para o Império, é certo e sabido que morreremos castrados/assassinados por ele. Cerremos então fileiras contra o Império. Descubramos onde ele esconde os seus pés de barro. E apontemos para aí todas as nossas energias, todas as pedras das nossas fundas, como fez David contra Golias. É hora de passar à acção concertada: Por isso, grito daqui de Macieira da Lixa: Empobrecidos e Oprimidos de todo o mundo, uni-vos! Na esperança. E também na acção política libertadora e revolucionária, da qual resulte uma nova Ordem Mundial a favor da Vida e vida em abundância para todos os povos. I-Até que ponto a Igreja Católica se afastou da mensagem original de Cristo? PM-De Cristo, sem
mais, a Igreja católica pode não se ter afastado muito.
Pode até ter-se identificado com ele. Estou a pensar, é
claro, no Cristo do Império romano, mais ou menos identificado,
naquele tempo, com o próprio Imperador. Mas de Jesus, o de Nazaré,
sim, a Igreja católica afastou-se quase cem por cento. Também
se afastou quase cem por cento de Cristo, mas apenas daquele Cristo
Crucificado pelo Império e pelo Templo, que era, afinal, o próprio
Jesus de Nazaré, pelo menos, no desassombrado testemunhar das
suas discípulas e dos seus discípulos, que não
hesitaram em colar para sempre esse título messiânico,
libertador, ao seu nome histórico. I-Entrando no domínio da fantasia, imagine que era escolhido para ser Papa. Quais as três primeiras coisas a fazer? PM-Nem no domínio da fantasia sou capaz de me ver no papel de Papa. Aliás, como cristão seguidor de Jesus, nunca eu aceitaria semelhante título e semelhante papel. Por isso, resumo aqui as três primeiras coisas a fazer numa só. Formulo-a assim: Seja convocado quanto antes um Concílio macro-ecuménico que acabe de imediato com essa aberração institucional eclesiástica que é hoje o papado chefe de Estado do Vaticano, celibatário à força, patriarcalista, monarca absoluto, infalível, e com a Cúria romana que sempre tem feito gato-sapato do papa de turno, sobretudo, quando este não tem o carisma de um João XXIII ou de um João Paulo I. E que, em seu lugar, o mesmo Concílio se atreva a criar um Serviço maiêutico de Coordenação/animação da Igreja, na linha do Servo de Iahvé, do Profeta Isaías, constituído por mulheres e homens dos cinco continentes, em cujas vidas históricas sobressaia a presença actuante da mesma Fé de Jesus, escolhidos e aclamados por toda a Igreja, segundo métodos que o Espírito Santo não deixará indubitavelmente de inspirar. |