Doença de Prado Coelho alastra e preocupa médicos
No
entanto, nos últimos dois meses, têm surgido inúmeros
casos de uma variante da doença provocada por um vírus resistente
que começam a preocupar os médicos. A nova variante da doença de Prado Coelho é altamente contagiosa e pode provocar dilatação estomacal, aumento das pilosidades faciais e corporais, miopia, morte e, se não for tratada a tempo, poderá transformar o doente numa espécie de alforreca amorfa de discurso críptico. Um
dos principais sintomas é uma necessidade irreprimível de
incluir citações de personalidades célebres no discurso
do quotidiano em qualquer ocasião por menos adequada que possa
parecer a alguém no pleno uso das suas faculdades mentais. Para
um sofredor de citacionite nevrálgica (doença de Prado Coelho)
torna-se praticamente impossível avaliar quais os contextos em
que uma citação se torna adequada ou não, o que provoca
momentos embaraçosos não para os próprios, visto
que não se apercebem do seu comportamento aberrante, mas para todos
os que com eles privem. O médico que tem assumido protagonismo no combate à doença de Prado Coelho, Geraldo Lambreta de Almeida, director do serviço de intelectualogia e doenças do pâncreas do hospital de Santa Maria em Lisboa, considera que ainda é cedo para se dizer que a saúde pública está em risco até porque não convém alarmar a população (e não há população que se alarme tão facilmente ou com tanto gosto como a portuguesa) e, por isso, recomenda moderação no discurso. Quanto à doença propriamente dita, adianta que "o principal perigo da citacionite nevrálgica é o modo como o vírus que a provoca se instala no organismo e em segundos assume o controlo das funções mentais sem que a pessoa se aperceba, tal e qual como disse Alexandre Dumas Filho na sua 'Dama das Camélias': Il y a des incidents d'une minute qui font plus qu'une cour d'une année." Também o ministro da Saúde, Luís Filipe Pereira, se mostra preocupado com a situação mas sem cair em alarmismos. "Temos uma equipa de especialistas qualificados a analisar o problema e a averiguar quais serão as melhores soluções. Dizer que temos uma epidemia entre mãos faz-me lembrar as palavras de Ovídio quando disse: 'Video meliora proboque deteriora sequor," considerou. Quanto
ao homem que deu nome à doença, o ícone cultural
e boneco da Michelin em part-time, Eduardo Prado Coelho, considera que
"não se trata de uma doença mas sim de um modo de vida"
e acrescenta que "Como disse Marguerite Duras: 'Écrire c'est
aussi ne pas parler. C'est se taire. C'est hurler sans bruit.' Por aqui
percebe-se que é perfeitamente plausível que alguém
faça da citação de outros a sua filosofia de vida
quando não se tem nada de mais pessoal para partilhar com o mundo.
Já Baudelaire dizia que 'L'étude du beau est un duel où
l'artiste crie de frayeur avant d'être vaincu." Recorde-se
que a doença de Prado Coelho é facilmente tratada mediante
aplicação intravenosa de doses bidiárias de quadras
de Santo António e emplastros de petingas fritas com pão
saloio se for detectada a tempo. A Inépcia recomenda que se procure
um médico aos primeiros sintomas antes que seja tarde demais. |