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| E-zine satírico sem corantes nem conservantes | |||
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Os príncipes do riso
Guilherme
e Álvaro conhecem-se há muito tempo. Desde o tempo em
que o primeiro completava um curso de Filosofia na Faculdade de Letras
de Lisboa e o segundo vendia esfregões de arame de porta em porta
ali para os lados de Campolide. "Na altura, a filosofia era tudo
para mim. Kant, Schopenhauer, Leibniz...os pré-socráticos...",
lembra Guilherme "mas depois, com o sucesso e com o dinheiro a
começar a entrar, acabei por me afastar um bocado." Mas
não antes de acabar o curso com média de 18 valores e
de ficar na memória dos professores. "Era um excelente aluno",
lembra Bernardo Paes Tenreiro, professor de Filosofia recém-reformado,
"tinha um talento especial para a oratória e para desconstruir
os argumentos dos professores." "Conheci o Álvaro em 1976. Ia a virar uma esquina carregado com a obra completa dos pitagóricos e ele vinha do outro lado a empurrar a bicicleta. Chocámos e foi tudo ao ar. O chão à nossa volta estava coberto com reproduções de manuscritos em grego clássico misturadas com esfregões de arame dos mais diversos tamanhos e piassabas." Álvaro prontificou-se a ajudar a apanhar a papelada do chão e começaram a falar. "Vi logo que havia ali muito talento" diz. Álvaro Martins sempre tivera queda para as lides do humor. Desde que o seu pai alcoólico chegara a casa certa noite, completamente ébrio como era normal, e ameaçou espancá-lo com o cabo de um ancinho e o pequeno Álvaro, então com apenas 8 anos, criou o seu melhor trocadilho até agora. "Ó paizinho, não me batas com o cabo... espera até chegar a sargento que dói mais". Ninguém resistiu. Nem o pai, nem a mãe, a avó, as irmãs e os vizinhos que se tinham sentado para assistir ao espancamento da noite. Depois, veio o serviço militar em Moçambique onde Álvaro fez carreira como o "campeão das piadas racistas de Lourenço Marques". As pequenas aldeias de palhotas do vasto sertão moçambicano tremiam com as gargalhadas dos macondes, dos tsongas, dos shonas. Os macuas não lhe achavam grande piada porque o seu sentido de humor é menos requintado e estão mais inclinados para a comédia britânica. Conta-se que chegou a ter entre o seu público nomes como os de Samora Machel e Robert Mugabe. Em 1974, com a revolução, os combatentes do ultramar regressam a casa. Portugal era, nessa altura, um país triste e sombrio, a precisar, desesperadamente, de umas boas gargalhadas. A situação não podia ser melhor para o lançamento da carreira de Álvaro Martins. Escolheu a profissão mais propícia à divulgação do seu trabalho, vendedor ambulante de cacos de vidro, e deitou mãos à obra. Em apenas um ano, o sucesso alcançado permitiu-lhe passar dos cacos para os esfregões de arame e foi então que alguém se lhe atravessou no caminho carregado com resmas de filosofia arcaica. "As pessoas pensam que sou eu que invento estas coisas todas mas não é verdade" conta-nos Guilherme Leite. "O Álvaro é que é o génio criativo. Eu só dou a cara porque sou mais fotogénico" deixa escapar com um sorriso. "Mas já estou a começar a escrever qualquer coisa. O mais difícil é deixar as influências de Kierkegaard e Michel Foucault e arranjar maneira de fazer trocadilhos com partes malandras do corpo como os testículos ou o clitóris. E olhe que não é fácil", acrescenta. Pouco tempo após o seu primeiro encontro, Guilherme e Álvaro começaram a trabalhar juntos. O seu primeiro trabalho foi um espectáculo de café-concerto nudista representado num bar do Cais do Sodré. Américo Freitas, proprietário do Scandinavia Dancing ainda se lembra como se fosse hoje. "Não tinham grande piada", afirma. Mais tarde, o espectáculo seria traduzido para ucraniano e seria um dos maiores sucessos da cultura underground da capital. "Chegaram a vir imigrantes ilegais do Bangladesh e do Senegal só para verem isso", lembra Jerónimo Almeida, pedinte profissional residente desde 1953 no pedestal da estátua do Duque da Terceira na conhecida praça alfacinha com o mesmo nome. Frustados
por esta experiência menos positiva, a genial dupla virou-se para
o circo e montaram um número de palhaços também
nudistas. Dois anos depois, vestiram-se e começaram a ser convidados
para festas infantis. Numa dessas festas, conheceram um executivo importante
da televisão, cujo nome preferem não revelar, que, ao
vê-los, largou a Barbie a que tentava arrancar as pernas e lhes
fez uma proposta milionária. No dia seguinte, o contrato estava
assinado. Quando
abandonámos o estúdio, conscientes de termos estado a
falar com um dos nomes mais marcantes da cultura portuguesa, e talvez
até mundial, deste século, Álvaro Martins ainda
estava na rotunda de Entre Campos. O tempo não era muito e não
havia maneira de o autor chegar com o texto das rábulas. Mas
o génio não é limitado por este tipo de ninharias.
Prontamente, Guilherme Leite, ex-palhaço, ex-neopositivista crítico,
ex-nudista artístico, encontra uma solução. "Opá...
tu vai ali ao café da esquina e compra uma cassete do Cantinflas.
Hoje, vamos fazer uma coisa mais requintada." |
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