Intelectual admite não ter percebido exposição
Eurico Vasques, 34 anos, estudante de Belas Artes no Porto há seis anos desde que trocou o curso de engenharia agrária pela sua vocação artística. “Saber de cor quantos tipos diferentes de estrume existem já não me satisfazia. Precisava de alguma coisa mais para me sentir realizado,” refere, “Foi então que percebi que me tinha tornado um intelectual.” De imediato, Eurico abandonou o estudo das técnicas agrícolas e esforçou-se para se tornar um intelectual de corpo e alma. Começou a ler livros em francês em público, guardando o dicionário ilustrado para usar apenas quando ninguém estivesse a ver e consciente de que, nos livros, o significado é o que interessa menos. Trocou as lentes de contacto por uns impressionantes óculos de massa, abandonou a namorada, uma atraente estudante de gestão, trocando-a por uma artista conceptual com tendências suicidas e que, entretanto, já passou por uma fase lésbica, por uma fase de castidade religiosa contemplativa, encontrando-se actualmente na fase “ninguém me compreende” que é vista como um dos estados mais adiantados da evolução do Homo sapiens para o Homo intelectualis. A
vida corria-lhe bem, entre as aulas de Belas Artes, as exposições
dos seus trabalhos de escultura minimalista em sabão azul e branco
e sapatos velhos e as idas a eventos culturais enriquecedores. Foi o caos. Assustados e sem compreender, os amigos fugiram dele em pânico. Eurico ficou sozinho sem perceber a dimensão do que tinha acabado de fazer. Em poucos dias, todos os amigos o tinham abandonado. Da namorada não sabe nada, porque fugiu para Marrocos com um vendedor de tapetes para, segundo a própria, “ajudar a esbater o abismo entre o Ocidente e o mundo islâmico.” Al Fredo, músico ou “fotógrafo de sons” como prefere ser chamado, e um dos melhores amigos de Eurico até ao incidente, tenta explicar o sucedido. “Não esperávamos que o Eurico fosse capaz de uma coisa destas,” refere, ajeitando o cachimbo, “Dizer que não percebeu é o tipo de afirmação inconsequente e sem qualquer respeito pela natureza da arte e da própria cultura que um intelectual que se preze nunca pode pronunciar. É o mesmo que ter uma prostituta a recusar servir um cliente por nem sequer lhe conhecer os pais. É absurdo.” Mas
Eurico insiste. “É que não percebi mesmo! Fartei-me
de tentar interpretar aquilo mas são só paredes vazias.
Não há nada para interpretar,” refere. A estas palavras,
Cátia Loureiro, realizadora de cinema, intelectual assumida e ex-amiga,
apenas responde que “não é este o Eurico que conheci
e que ajudei na escolha do filme preferido do Bergman.” |