Mensagem de Natal de Durão Barroso descodificada
Portugueses, nesta época de paz e saudável e harmonioso convívio familiar, venho falar-vos não como primeiro-ministro mas como amigo. Porque é assim que gostaria de ser v isto por todos vocês. Não aspiro a que me vejam como um grande amigo. Como um amigo íntimo. Como um amigo de infância. Estou plenamente consciente da distância que existe, sempre existiu e, muito provavelmente sempre existirá entre governantes e governados. Ao invés, gostaria que me vissem como aquele amigo chato e estúpido que se tolera sem se saber muito bem porquê. E é como amigo que vos digo que o ano de 2004 será crucial para o nosso país. Como é sabido, a economia global está a atravessar um período de crise. Estas crises económicas que afectam o mundo são fenómenos periódicos, ou seja, que surgem de forma inevitável, evoluem até atingirem o seu clímax e se vão atenuando até se dissolverem e darem lugar a um período de prosperidade económica. Encontramo-nos neste momento no período do ciclo de crise em que os governantes de todo o mundo vêm dizer aos cidadãos dos países respectivos que o pior já passou. Que em breve assistirão a uma retoma da economia. E eu faço o mesmo, até porque, muito sinceramente, nunca tive cabeça para estas coisas da economia e não me tenho saído mal em imitar o que os meus colegas da Europa e do mundo fazem. Mas não se pense que as dificuldades vão desaparecer com o advento do novo ano. Pelo contrário, subsistirão porque a saída da crise é sempre gradual. O que é necessário é existir uma consciência de que as dificuldades não são suportadas apenas por uns enquanto outros são poupados. Todos os portugueses são afectados pela crise de que, felizmente, começaremos a sair muito em breve. Dou-vos um exemplo. Há algum tempo atrás, encontrava-me em visita oficial a um bordel de luxo nos arredores de Lisboa e na poltrona ao lado da minha, estava sentado o presidente de um conhecido grupo empresarial cujo nome não vem ao caso, com uma matulona ucraniana escarrapachada no colo que lhe dizia: "Então amor? Nyet de truca-truca?" ao que o empresário respondeu: "Parece que hoje não vai dar. Estou a sentir algumas dificuldades." Eu próprio também sinto dificuldades, apesar de não ter quaisquer problemas a nível sexual como pode ser comprovado pela fadiga crónica de que sofre a minha esposa. Mas prestem atenção à imagem que têm nos vossos écrans de televisão. Provavelmente,
não farão ideia do dinheiro que custou arranjar um consultor
de imagem para escolher o fato apropriado para fazer este comunicado ou
trazer um especialista em feng shui directamente de Macau para estudar
o modo de posicionar as mãos mais benéfico para o país.
E quanto ao cenário que está por trás de mim? Esta
lareira de aspecto natalício foi construída com o mesmo
software usado nos filmes de Hollywood para criar ambientes fictícios
com grande realismo, porque o recheio da residência oficial do primeiro-ministro
foi transferido para uma casa que possuo no Algarve para garantir a segurança
daquele património nacional em caso de ataque terroristas. Tudo
isto custou muito dinheiro, uma quantia várias vezes superior àquela
que possuo e ver-me-ia forçado a recorrer a um empréstimo
bancário se não existisse uma verba no orçamento
de Estado reservada para despesas pessoais absurdas do executivo. Gostaria
de aproveitar esta oportunidade para dirigir cumprimentos especiais aos
militares da GNR que se encontram a servir o seu país no Iraque
integrados numa força internacional cuja missão é
tornar mais agradável a vida dos nossos amigos iraquianos, finalmente
livres das garras do ditador Saddam Hussein. Lembro-lhes que o vosso país
se orgulha do vosso esforço e da coragem que revelam ao enfrentar
este desafio. Em breve, se tudo correr como planeado, estarei presente
na recepção oficial dos vossos restos mortais com todas
as honras de Estado que permitirão ao país levantar a cabeça
depois de tantas dificuldades enfrentadas com a consciência de que
os portugueses são gente de valor ainda capaz de grandes feitos.
Peço desculpa em meu nome e em nome de Portugal por não
terem recebido os ingredientes necessários para a realização
de uma consoada à portuguesa que vos foram prometidos e tantas
vezes anunciados e por terem de subsistir com esmolas das forças
italianas mas creio que posso dizer em nome de todos que deixem mas é
de ser xoninhas, sempre a queixarem-se! Se calhar morrem por não
comer bacalhau na noite de Natal, não? Acham que eu também
comi bacalhau? Tive de me contentar com uma refeição de
oito pratos que incluía faisão grelhado com pêras
recheadas, costeletas de javali com molho de trufas e truta salmonada
com ervilhas e pepitas de ouro de coentrada. Bacalhau nem vê-lo.
Apresento
também os meus votos de festas felizes aos nossos amigos lusófonos,
em especial aos países africanos de língua oficial portuguesa.
Que os laços históricos de amizade que existem entre nós
nunca se esbatam. A minha presença entre os convidados para o casamento
da filha de sua excelência, o presidente José Eduardo dos
Santos de Angola foi também um gesto simbólico representativo
do tipo de pequenos gestos que podem ser feitos por qualquer um de nós
para que, cada vez mais, a lusofonia seja uma grande e unida família.
E gestos como este trazem grandes benefícios a todos e causam transtorno
mínimo a quem os pratica. No meu caso, esse transtorno, que nem
chega a sê-lo, limitou-se à viagem e a uma prenda simbólica
do primeiro-ministro de Portugal para os noivos que consistiu num faqueiro
de prata banhada a ouro e na península de Setúbal que agora,
oficialmente, passa a ser território da Repúbica de Angola.
Para terminar,
uma palavra de apreço especial para dois sectores muito importantes
da sociedade portuguesa. Em primeiro lugar, os jovens que constituem o
futuro da Nação e que, pelos níveis elevados de estupidez
mais ou menos generalizada que revelam garantem que o país vai
continuar a manter os mesmos padrões de corrupção,
incompetência, ignorância e irresponsabilidade que tanto nos
orgulham e que fazem já parte do nosso património histórico-cultural.
E não me poderia esquecer dos nossos emigrantes, gente que não
hesita em abandonar o conforto dos lares e a convivência com familiares
e amigos para rumar ao estrangeiro para lutar pela vida, dando contributos
incontornáveis para o aumento das vendas de música de má
qualidade e para o enriquecimento da nossa arquitectura tradicional com
casas de telhados pontiagudos e cores garridas. |