Vantagens
de ter um presidente da Câmara corrupto
Tem-se
tornado moda falar da corrupção entre os políticos,
sobretudo entre os autarcas, e enumerar os seus males. Não será
a coisa mais razoável para se fazer num país onde a corrupção
rivaliza com o futebol como desporto-rei e, ao mesmo tempo, com o catolicismo
não-praticante como religião maioritária. Os portugueses
gostam da corrupção (como as mais recentes sondagens eleitorais
em muitos concelhos indicarão de forma indesmentível)
e têm motivos para isso. O que pode acontecer é que, muitas
vezes, se ceda a modos de pensar estrangeirados vindos de países
onde a corrupção é vista como um mal e onde não
se compreende até que ponto a cultura portuguesa tem nela um
dos seus pilares fundamentais. E a cedência ocorre pela tão
nacional vergonha de defender o que é nosso e a facilidade em
ceder a gostos importados e modas de além-mar. Para ajudar a
inverter este estado de coisas, a Inépcia faculta aos seus leitores
uma lista de algumas das vantagens em ter um presidente da Câmara
manifestamente corrupto que permitirá contra-argumentar em discussões
com os opositores fanáticos da corrupção, os pérfidos
fundamentalistas dessa qualidade tão sobrevalorizada que é
a honestidade.
-Um presidente da Câmara corrupto põe o município
que governa no mapa. Claro que um presidente da Junta corrupto também
não será mau de todo mas o trabalho deste ficará
sempre condicionado ao facto de o seu superior autárquico ser
ou não, também ele, corrupto. Se for honesto, todas as
simpáticas vantagens da sua corrupção para os cidadãos
serão anuladas. Quem conhece Gondomar? Ou Oeiras? Ou Marco de
Canaveses? Felgueiras? Toda a gente, decerto. Por mérito dos
corruptos que governaram estes municípios. E quem conhecerá
os municípios de Santa Bárbara de Perafita, Manganal do
Vouga ou Brejos de Albarraque? Ninguém. E porquê? Porque
têm presidentes da Câmara honestos. Ou talvez porque não
existam. Mas isso já não vem ao caso.
-Um presidente da Câmara corrupto põe a equipa da terra
a jogar melhor. É um facto. Veja-se o exemplo do Gondomar e do
Marco, equipas sem quaisquer pergaminhos no futebol nacional, e que,
sem que ninguém o esperasse disputam este ano o campeonato da
Liga de Honra. Pense-se no Felgueiras que chegou até à
primeira divisão há alguns anos atrás com grandes
culpas da Fátima homónima, o que levou a direcção
do clube, em jeito de homenagem, a juntar ao vermelho das camisolas
o azul, cor preferida da presidenta e dos seus sacos, em listas verticais.
A excepção que confirma a regra é a Associação
Desportiva de Oeiras que disputa a modesta série F do campeonato
da 3ª Divisão mas isto explica-se porque o presidente desta
agremiação é um antigo colega de escola de Isaltino
Morais que o costumava arreliar, tratando-o pela maldosa alcunha “Isaltino
Bacorinho” numa alusão óbvia à fisiologia
porcina que a idade não conseguiu disfarçar completamente.
-Com um presidente da Câmara corrupto, toda a gente sabe com o
que pode contar. As qualidades dos autarcas (corruptos ou não)
são sempre conhecidas até porque, normalmente, os próprios
fazem questão de as noticiar amplamente e até, se possível,
de as exagerar. Mas apenas no caso dos presidentes de Câmara corruptos
os defeitos se tornam também públicos. O presidente X
é corrupto. Pronto. Mais nada a dizer. Ninguém é
perfeito, todos têm os seus defeitos e este pobre mortal temente
a Deus em particular gosta de enfiar dinheiro no bolso e aceitar luvas.
Com um presidente de Câmara honesto, é um tiro no escuro.
Pode ser muito bom gestor, pode cumprir quase todas as promessas. Pode
até ser simpático para idosos e criancinhas. Mas fica-se
sempre de pé atrás. Qual será o lado negativo (sendo
certo que o terá obrigatoriamente)? Será que a afeição
por criancinhas poderá adquirir contornos doentios? Será
que a afeição por idosos poderá também adquirir
contornos doentios? Será que bate nos animais? Será que
aluga quartos a terroristas procurados pelas autoridades internacionais?
Nunca se sabe. Não há como a segurança que a corrupção
pública e assumida proporciona.
-De igual
forma, com um presidente da Câmara corrupto, não há
aquela ânsia constante de saber quando é que o autarca
lançará a honestidade às urtigas e decidirá
que já é tempo de beneficiar-se a si e aos seus com aquela
coisa da política. Os portugueses que têm a infelicidade
de viver num município presidido por um autarca íntegro
(felizmente, são cada vez menos) vivem num stress medonho, esperando
o momento da “queda do anjo” que poderá acontecer
a qualquer momento. Pense-se em Avelino Ferreira Torres. Exactamente
26 segundos depois de tomar posse pela primeira vez (corria o ano de
1612), já estava a cometer um acto ilícito no exercício
das suas funções em benefício próprio. Isto
é um exemplo a seguir. Assumida a corrupção sem
demoras e o seu estimado povo pode viver descansado na convicção
plena de que o pior já passou.